UM CONTO NATALINO

  • 08/11/2018
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UM CONTO NATALINO

O Natal batia à porta. Aquela costumeira correria para os preparativos, as providências antecipadas para os encontros familiares, a escolha do cardápio da ceia, enfim, povoavam a mente dela. “Vai ser um Natal inesquecível”, declarava, convicta.

Sem dúvida, a expectativa se justificava. A gravidez já estava em estágio avançado e, em dois meses, sua filhinha viria ao mundo para coroar seu casamento e sua vida. Ela estava feliz, radiante. Sua pele, viçosa e aveludada como pêssego. Seus olhos, iluminados. Seu temperamento, apesar das dores musculares e do mau jeito que a barriga lhe proporcionava, estava equilibrado, sereno.

Aquele dia era bem especial para ela. A festa de fim de ano da empresa que trabalhava. Seria a última oportunidade de estar ao lado de seus colegas numa confraternização que premiaria a vida, antes de tudo. Logo depois, em janeiro, tiraria suas férias para emendar, logo na sequência, seu afastamento pela licença-maternidade. Estava preparada para rir muito, dançar, comer os quitutes sem culpa de consciência, se divertir.

Sua amiga e colega de trabalho veio para buscá-la. Iriam juntas, caminhando e aproveitando para colocar as fofocas em dia. Procurou se arrumar do melhor jeito que podia, já que não tinha roupas adequadas na altura daquela gestação. Estava muito animada e sua amiga contribuía muito com isso, conversando sem parar e animando seu espírito.

Deu um beijo carinhoso no marido e saiu serelepe pela porta da frente com a amiga. “O churrasco promete”, ela dizia. “Fulana vai levar um bolo também, e ela é excelente boleira”, respondia a amiga. O papo fluía enquanto ela descia a principal rua do Bairro Imperial, onde morava.

Quando estavam perto do centro da cidade, lembrou que faltava algo. Esquecera a bolsa. “Deixa pra lá, nem vai precisar”, ponderou a amiga. “Não, vamos voltar. Minha vida tá naquela bolsa”, ela arguiu. E, mesmo diante de todo um morro pela frente, estava determinada a não ir para a festa sem a sua bolsa.

Suando e cansada, amparada pela amiga durante o trajeto, conseguiu retornar à sua residência. Notou estranhamente que o portãozinho de ferro da frente estava entreaberto. “Juro que achei que tinha fechado”, pensou.

Ao abrir a porta e notando um barulho vindo do quarto, seu coração se estremeceu. A cena que viu foi revoltante e tudo o que havia planejado para aquele dia havia caído por terra naquele momento. Seu marido estava na cama. Nu. Dois dorsos peludos se roçando.

“Se pelo menos fosse com outra mulher”, a amiga pensou. O choque foi grande. Irada e fora de si, partiu para cima do marido, enquanto o outro pegava rapidamente suas roupas e fugia pela porta da frente.

Ela acordou com muitas dores e bem sonolenta. Parecia estar grogue, anestesiada. Olhou em volta. Sua amiga ao seu lado. Soro na veia. Estava num hospital. Olhou para seu braço. Tinha hematomas. Instintivamente, levantou a roupa hospitalar para checar a barriga. Havia também um hematoma, mas o bebê continuava por lá.

O repórter policial noticiou o fato no rádio. Revoltado, chamou o marido de ‘giletão’. “Covarde! Se é homem, porque não enfrenta um outro?”, bradava, desconsolado ao microfone.

O sujeito ouviu. E processou a emissora. Levou uma indenização de 20 mil Ufir na época. E provavelmente ainda manteve o amante.

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José Roberto Rodrigues

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